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Quando falamos de artesãos estamos a falar de uma multiplicidade de
pessoas com interesses e objectivos diferentes. Uns encontram a sua
sustentabilidade e da sua família no trabalho que
realizam. Outros
encontram uma satisfação que também lhes garante um acréscimo de verbas
para os seus orçamentos familiares e ainda outros necessitam de manter a
sua sobrevivência com o pouco dinheiro ganho na venda das peças que
produzem.
Daqui resulta que são poucos os artesãos que têm uma noção de mercado,
uma preocupação com a imagem e qualidade, que distinguem os seus
clientes entre pessoas e lojas. Uma grande parte dos artesãos vende
conforme a cara, a origem e a comunicabilidade da pessoa/cliente.
Alguns, poucos, tornam-se importantes mercê da qualidade do seu
trabalho, da sua antiguidade, da visibilidade que lhes é atribuída pelos
meios de comunicação social, nomeadamente a televisão. Esta importância
traduz-se naturalmente nos preços praticados que passam a ter a
componente custo/prestígio. Existem mesmo artesãos que atingem um tal
grau de notoriedade, a par de apoios institucionais e financeiros, que
dispensam as lojas como meio de venda do seu trabalho.
Nos
últimos anos e sobretudo nas áreas da cerâmica, azulejaria e joalharia,
fruto de formação técnica (escolas privadas e instituições oficiais) têm
aparecido novos artesãos, a que poderemos chamar (grosso modo) urbanos,
cujas expectativas foram ampliadas durante a formação mas que não
encontram correspondência na realidade. Para estes uma boa parte do seu
trabalho só tem escoamento difícil nas lojas de decoração, pois existem
poucas lojas de artesanato com qualidade e as de lembranças/“souvenirs”
trabalham principalmente com artesanato (?) industrial e cada vez mais
de proveniência chinesa e indiana.
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As lojas de artesanato que não correspondem ao gosto fácil, que rejeitam
vender lembranças industriais, uma boa parte delas com origem na China e
Índia, têm uma vida difícil. Desde logo porque as suas vendas só com
muito esforço são suficientes para pagar todas as despesas (renda de
casa, água, luz, telefone, seguros obrigatórios, segurança social,
salários, transportes, combustível, custos de cartões Visa e Multibanco,
roubos e impostos) e também porque os seus potenciais clientes são uma
franja diminuta (infelizmente) da população. As raras lojas existentes
não têm subsídios ou apoios porque considerados espaços comerciais vão
sobrevivendo, na maior parte dos casos, à custa de enorme voluntarismo e
sólida formação cultural. Desde que iniciámos a nossa actividade há 12
anos, temos assistido à abertura e fecho de lojas que pretendiam
divulgar e vender o que de melhor se faz em Portugal. Naturalmente que
não estamos a considerar espaços semi-oficiais ou apoiados
por projectos Leader que nalguns casos configuram concorrência
desleal. E falando de concorrência não podemos esquecer que a falta de
conhecimentos de gestão e de mercado por parte dos artesãos, somados à
ausência de pagamento de impostos (com algumas excepções) e tomando em
consideração os subsídios continuados que constituem os apoios para
presenças em feiras de artesanato, determinam uma concorrência
desagradável que as lojas têm de enfrentar.
Muitos clientes desconhecedores das realidades deste mercado, ao
comprarem na feira uma peça de 60 euros e verificarem que a mesma custa
na loja 120 euros “incriminam” o lojista convencidos que o mesmo está a
enriquecer facilmente. Uma loja tem de adicionar aos custos da peça os
custos de transporte e depois considerar uma percentagem (por norma 50%)
para as despesas de exploração e ainda acrescentar os 21% de IVA.
Alguns artesãos argumentam que não existem lojas para escoar a sua
produção, mas não reflectem sobre as razões de tal ausência, sendo um
motivo forte a sua própria prática de preços, quer no seu local de
trabalho quer em feiras de artesanato provocando desregulação de
mercado.
Também não é desprezível a falta de noção de qualidade e prestígio por
parte de alguns artesãos que na sua ânsia descontrolada de vender,
sempre vender, acabam por colocar os seus trabalhos em espaços de
“souvenirs”, junto de trabalhos industriais de galos chineses e Nossas
Senhoras de Fátima e Santos Antónios executados na China e Índia,
cachecóis, camisols de jogadores de futebol, etc.. Estes artesãos
prejudicam o seu futuro e destroem o trabalho de lojas de qualidade que
lhes dão espaço exposicional sem misturas impróprias, que o promovem,
que valorizam o seu trabalho enquadrando o mesmo no conceito de arte
popular.
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3.
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Contactámos um artesão alentejano que executava mobiliário em miniaturas
da sua região, na Feira do Pombal e interessados no seu trabalho
quisémos saber quais os preços que poderia praticar para a loja.
Respondeu que apenas tinha um preço, que não estava interessado em lojas
e as vendas efectuadas nas feiras lhe bastavam. Resta acrescentar que
tinha sido convidado e nada pagava. Não sabemos se ainda lhe davam
subsídio para refeições, sabemos contudo que em muitas feiras , paga-se
aos artesãos os transportes, as refeições e as dormidas. É vulgar os
artesãos afirmarem que só vão ás feiras quando não têm despesas.
Temos mesmo observado que existem artesãos com presença garantida em 10
ou 20 feiras anuais para as quais são convidados por Câmaras Municipais
que depois não dispõem de verbas (nem vontade) para manter um espaço
durante todo o ano onde possam mostrar os trabalhos que são realizados
no seu concelho. Existem felizmente boas excepções (do que conhecemos)
como são o caso de Viseu, Guarda, Miranda do Douro, Barcelos que mantêm
espaços exposicionais dos “seus” artesãos com informação disponível onde
os interessados podem apreciar, num primeiro contacto, os trabalhos e
depois, visitar directamente os artesãos.
Os
preços praticados nas feiras são muito próximos dos praticados nas lojas
e sem movimento de facturas e impostos. Claro que existem poucos
artesãos fora desta prática, que naturalmente as lojas também valorizam.
As
feiras nunca são encaradas como certame de divulgação e ampliação de
actividade ou negócio (veja-se a forma como os trabalhos são expostos)
mas sim como “postos de venda” subsidiados que excluem portanto política
de preços, trabalho de promoção e divulgação e busca de novos clientes.
Nestes termos como é possível uma loja concorrer com as feiras? Ou será
que os artesãos, responsáveis locais e nacionais, consideram que as
lojas são dispensáveis?
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4.
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Somos dos que pensam que o mercado deve ser regulado e que as lojas de
qualidade, dedicadas exclusivamente ao artesanato português, devem
existir e tomadas mesmo como ponto de partida para contactos e promoções
internacionais. Devem ser reconhecidas, com estatuto formal e sem
custos, pelos organismos oficiais.
Será positivo que os artesãos possam participar em acções de formação na
área da gestão e mercado e que a sua presença em feiras seja
condicionada à prática de uma política de preços que concorra, de forma
progressiva, para uma regulação de mercado.
Esta regulação causará alguns distúrbios iniciais, mas contribuirá a
médio e longo prazo para anular o paradigma de que a arte popular tem de
ser “coitadinha” e “baratinha”, (pre) conceito que lhe retira valor e
qualidade. Seria interessante realizar-se um estudo sobre quem adquire
artesanato. Estamos em crer que do mesmo resultariam algumas surpresas.
Torna-se fundamental um trabalho persistente junto dos organizadores das
feiras de artesanato no sentido da sensibilização para as regras de
mercado e da busca de qualidade nos respectivos certames. Porque não
disponibilizar uma equipa (decoradores e gráficos) que apoie os artesãos
na exposição dos seus trabalhos?
Poderia ser aproveitado algum tempo (manhãs) nas feiras de artesanato
mais destacadas para sensibilizar os artesãos, discutir com eles
questões de promoção, divulgação, política de preços, imagem. A presença
nestes “tempos” seria talvez obrigatória ou originando regalias face aos
que recusavam esta simples abordagem de formação.
As
Câmaras Municipais têm de encontrar espaços próprios, com funcionários
motivados, para mostrar os trabalhos da região, para incentivar
potenciais clientes e lojas a visitar os seus artesãos e naturalmente
vendendo (com política de preços correcta) os produtos expostos.
Vai
longo este texto e ainda ficam por abordar várias questões, mas seria
interessante que continuasse a discussão (positiva) sobre o porquê de
não haver mais lojas de qualidade dedicadas ao artesanato português,
sobre a falta de regulação neste mercado difícil e diversificado e sobre
os aspectos positivos e negativos das feiras de artesanato. Discussão
que não pode perder de vista os interesses do artesão desde que baseados
na qualidade e divulgação do seu trabalho.
Homero Cardoso
Espaço Santos Ofícios
Publicado na Revista Mãos nº 31, Janeiro - Junho 2008
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