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Textos sobre Arte Popular

    "Lenços dos Namorados"
                        Santos Ofícios

          "A Loucura do Barro"
                    Jorge H. Bastos

         "Barros de Estremoz"
                      Azinhal Abelho

 "O Segredo está no Brunir
      com um Pequeno Seixo
                               do Rio"
                     Santos Ofícios


 

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“Só vou a feiras se me pagarem todas as despesas

 

 
1.

 

Quando falamos de artesãos estamos a falar de uma multiplicidade de pessoas com interesses e objectivos diferentes. Uns encontram a sua sustentabilidade e da sua família no trabalho que realizam. Outros encontram uma satisfação que também lhes garante um acréscimo de verbas para os seus orçamentos familiares e ainda outros necessitam de manter a sua sobrevivência com o pouco dinheiro ganho na venda das peças que produzem.

Daqui resulta que são poucos os artesãos que têm uma noção de mercado, uma preocupação com a imagem e qualidade, que distinguem os seus clientes entre pessoas e lojas. Uma grande parte dos artesãos vende conforme a cara, a origem e a comunicabilidade da pessoa/cliente. Alguns, poucos, tornam-se importantes mercê da qualidade do seu trabalho, da sua antiguidade, da visibilidade que lhes é atribuída pelos meios de comunicação social, nomeadamente a televisão. Esta importância traduz-se naturalmente nos preços praticados que passam a ter a componente custo/prestígio. Existem mesmo artesãos que atingem um tal grau de notoriedade, a par de apoios institucionais e financeiros, que dispensam as lojas como meio de venda do seu trabalho.

Nos últimos anos e sobretudo nas áreas da cerâmica, azulejaria e joalharia, fruto de formação técnica (escolas privadas e instituições oficiais) têm aparecido novos artesãos, a que poderemos chamar (grosso modo) urbanos, cujas expectativas foram ampliadas durante a formação mas que não encontram correspondência na realidade. Para estes uma boa parte do seu trabalho só tem escoamento difícil nas lojas de decoração, pois existem poucas lojas de artesanato com qualidade e as de lembranças/“souvenirs” trabalham principalmente com artesanato (?) industrial e cada vez mais de proveniência chinesa e indiana.
 

2.


As lojas de artesanato que não correspondem ao gosto fácil, que rejeitam vender lembranças industriais, uma boa parte delas com origem na China e Índia, têm uma vida difícil. Desde logo porque as suas vendas só com muito esforço são suficientes para pagar todas as despesas (renda de casa, água, luz, telefone, seguros obrigatórios, segurança social, salários, transportes, combustível, custos de cartões Visa e Multibanco, roubos e impostos) e também porque os seus potenciais clientes são uma franja diminuta (infelizmente) da população. As raras lojas existentes não têm subsídios ou apoios porque considerados espaços comerciais vão sobrevivendo, na maior parte dos casos, à custa de enorme voluntarismo e sólida formação cultural. Desde que iniciámos a nossa actividade há 12 anos, temos assistido à abertura e fecho de lojas que pretendiam divulgar e vender o que de melhor se faz em Portugal. Naturalmente que não estamos a considerar espaços semi-oficiais ou apoiados por projectos Leader que nalguns casos configuram concorrência desleal. E falando de concorrência não podemos esquecer que a falta de conhecimentos de gestão e de mercado por parte dos artesãos, somados à ausência de pagamento de impostos (com algumas excepções) e tomando em consideração os subsídios continuados que constituem os apoios para presenças em feiras de artesanato, determinam uma concorrência desagradável que as lojas têm de enfrentar.

Muitos clientes desconhecedores das realidades deste mercado, ao comprarem na feira uma peça de 60 euros e verificarem que a mesma custa na loja 120 euros “incriminam” o lojista convencidos que o mesmo está a enriquecer facilmente. Uma loja tem de adicionar aos custos da peça os custos de transporte e depois considerar uma percentagem (por norma 50%) para as despesas de exploração e ainda acrescentar os 21% de IVA.

Alguns artesãos argumentam que não existem lojas para escoar a sua produção, mas não reflectem sobre as razões de tal ausência, sendo um motivo forte a sua própria prática de preços, quer no seu local de trabalho quer em feiras de artesanato provocando desregulação de mercado.

Também não é desprezível a falta de noção de qualidade e prestígio por parte de alguns artesãos que na sua ânsia descontrolada de vender, sempre vender, acabam por colocar os seus trabalhos em espaços de “souvenirs”, junto de trabalhos industriais de galos chineses e Nossas Senhoras de Fátima e Santos Antónios executados na China e Índia, cachecóis, camisols de jogadores de futebol, etc.. Estes artesãos prejudicam o seu futuro e destroem o trabalho de lojas de qualidade que lhes dão espaço exposicional sem misturas impróprias, que o promovem, que valorizam o seu trabalho enquadrando o mesmo no conceito de arte popular.
 

3


Contactámos um artesão alentejano que executava mobiliário em miniaturas da sua região, na Feira do Pombal e interessados no seu trabalho quisémos saber quais os preços que poderia praticar para a loja. Respondeu que apenas tinha um preço, que não estava interessado em lojas e as vendas efectuadas nas feiras lhe bastavam. Resta acrescentar que tinha sido convidado e nada pagava. Não sabemos se ainda lhe davam subsídio para refeições, sabemos contudo que em muitas feiras , paga-se aos artesãos os transportes, as refeições e as dormidas. É vulgar os artesãos afirmarem que só vão ás feiras quando não têm despesas.

Temos mesmo observado que existem artesãos com presença garantida em 10 ou 20 feiras anuais para as quais são convidados por Câmaras Municipais que depois não dispõem de verbas (nem vontade) para manter um espaço durante todo o ano onde possam mostrar os trabalhos que são realizados no seu concelho. Existem felizmente boas excepções (do que conhecemos) como são o caso de Viseu, Guarda, Miranda do Douro, Barcelos que mantêm espaços exposicionais dos “seus” artesãos com informação disponível onde os interessados podem apreciar, num primeiro contacto, os trabalhos e depois, visitar directamente os artesãos.

Os preços praticados nas feiras são muito próximos dos praticados nas lojas e sem movimento de facturas e impostos. Claro que existem poucos artesãos fora desta prática, que naturalmente as lojas também valorizam.

As feiras nunca são encaradas como certame de divulgação e ampliação de actividade ou negócio (veja-se a forma como os trabalhos são expostos) mas sim como “postos de venda” subsidiados que excluem portanto política de preços, trabalho de promoção e divulgação e busca de novos clientes. Nestes termos como é possível uma loja concorrer com as feiras? Ou será que os artesãos, responsáveis locais e nacionais, consideram que as lojas são dispensáveis?

4. 

Somos dos que pensam que o mercado deve ser regulado e que as lojas de qualidade, dedicadas exclusivamente ao artesanato português, devem existir e tomadas mesmo como ponto de partida para contactos e promoções internacionais. Devem ser reconhecidas, com estatuto formal e sem custos, pelos organismos oficiais.

Será positivo que os artesãos possam participar em acções de formação na área da gestão e mercado e que a sua presença em feiras seja condicionada à prática de uma política de preços que concorra, de forma progressiva, para uma regulação de mercado.

Esta regulação causará alguns distúrbios iniciais, mas contribuirá a médio e longo prazo para anular o paradigma de que a arte popular tem de ser “coitadinha” e “baratinha”, (pre) conceito que lhe retira valor e qualidade. Seria interessante realizar-se um estudo sobre quem adquire artesanato. Estamos em crer que do mesmo resultariam algumas surpresas.

Torna-se fundamental um trabalho persistente junto dos organizadores das feiras de artesanato no sentido da sensibilização para as regras de mercado e da busca de qualidade nos respectivos certames. Porque não disponibilizar uma equipa (decoradores e gráficos) que apoie os artesãos na exposição dos seus trabalhos?

Poderia ser aproveitado algum tempo (manhãs) nas feiras de artesanato mais destacadas para sensibilizar os artesãos, discutir com eles questões de promoção, divulgação, política de preços, imagem. A presença nestes “tempos” seria talvez obrigatória ou originando regalias face aos que recusavam esta simples abordagem de formação.

As Câmaras Municipais têm de encontrar espaços próprios, com funcionários motivados, para mostrar os trabalhos da região, para incentivar potenciais clientes e lojas a visitar os seus artesãos e naturalmente vendendo (com política de preços correcta) os produtos expostos.

Vai longo este texto e ainda ficam por abordar várias questões, mas seria interessante que continuasse a discussão (positiva) sobre o porquê de não haver mais lojas de qualidade dedicadas ao artesanato português, sobre a falta de regulação neste mercado difícil e diversificado e sobre os aspectos positivos e negativos das feiras de artesanato. Discussão que não pode perder de vista os interesses do artesão desde que baseados na qualidade e divulgação do seu trabalho.

Homero Cardoso
Espaço Santos Ofícios
Publicado na Revista Mãos nº 31, Janeiro - Junho 2008

 

 

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