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Os caretos de Ouzilhão

    PALHAS ALHAS LEVA-AS O VENTO
 VAMOS FAZER OS CASAMENTOS

 

Vila Boa é uma aldeia cheia de tradições, a maior parte delas ligada à liturgia religiosa. De entre estas merecem especial realce as alusivas ao Natal, Santo Estevão, Páscoa e Dia de Todos-os-Santos.

Das tradições mais antigas, é a dos festejos do entrudo[1] que atinge o auge com
 os “casamentos”, que mais à frente abordaremos em pormenor.

Os preparativos do entrudo entusiasmam todos os rapazes da aldeia. Durante o Inverno, nas horas de lazer ou enquanto guardam as ovelhas ou as vacas, vão construindo as máscaras a cortes de canivete, que utilizarão na tarde do dia de Carnaval e mesmo na tarde do domingo anterior (domingo gordo).

As máscaras são feitas normalmente em madeira de amieiro ou castanheiro. Os fatos que vestem, feitos de velhas mantas e cobertores de cores garridas, são confeccionados pelas mães e avós nas horas de “lazer” ao serão e à lareira.

Os rapazes pedem emprestados chocalhos e sinetas dos animais que penduram no corpo para se fazerem sentir. É normal haver disputa entre os rapazes para ver quem junta maior número de chocalhos,  para assim chocalhar mais e consequentemente impor mais respeito.

Entretanto, o rapaz solteiro mais velho, ou pelo menos um que já “tenha ido à tropa”, vai preparando, no maior sigilo, as listas dos casais que na noite de Carnaval irão ser anunciados a todo o povo.

Quando chega o dia de Carnaval, depois do almoço, muitos rapazes “vestem-se” de máscaras, ou como são lá conhecidos, de caretos e passam a tarde povo abaixo, povo acima, piropando e assustando a garotada e as raparigas, principalmente aquelas que consideram mais encantadoras. Nestes percursos são muitas vezes convidados a entrar nas casas, especialmente nas adegas, para beber um copo e assim recuperar forças para prosseguir caminho.

Para além das máscaras ou caretos, existem também os marafonos[2] e as “madamas”, que tal como os máscaras passam a tarde povo abaixo povo acima. Marafonos, tanto são rapazes como raparigas, novos ou velhos. Qualquer pessoa se pode mascarar de marafono, o importante é, para além do sentido lúdico, conseguir não ser reconhecido.

Nesta tarde tudo ou quase tudo é permitido, ninguém leva a mal  pelo facto de levar pancada dos máscaras, nem de ser sujo com farinha ou cinza pelos marafonos. Toda a gente sai à rua, exceptuando os mais tímidos ou aqueles que de facto têm medo dos máscaras (crianças, velhos e algumas mulheres), no entanto respira-se um ar festivo e de grande confraternização.

É na maior expectativa que todos os rapazes e raparigas engolem a ceia, pois estão ansiosos por saber qual será o seu par, nome bem guardado no segredo dos deuses pelo rapaz da lista.

Até que, quando paira o maior sossego, o silêncio é quebrado pelo “homem do embude”[3], tradicionalmente um solteirão e já useiro e vezeiro nestas andanças. Perante a lista dos pares que lhe dizem, vai formando quadras adequadas para o respectivo casamento.

Estes casamentos são apregoados no embude a partir do lugar mais alto (Junta de Freguesia) da aldeia, que é bem extensa, para o eco levar os versos a todos os pontos da aldeia e assim todos os poderem ouvir.

 

A primeira quadra é uma introdução à cerimónia que vai ter lugar e diz assim:

                                 Palhas alhas leva-as o vento
                                 Vamos fazer os casamentos...

                                 Quem os não quiser aceitar
                                 Venha cá para os descasar

Ou então assim:

                                  Palhas alhas leva-as o vento
                                  Vamos fazer os casamentos...
                                  Quem os não aceitar

                                  Vai à feira de Vinhais a trocar

E a rapaziada que lá se concentra, impaciente, em coro vai soltando vivó.ó.ó.ó...

Entretanto as raparigas vêm para a janela para ouvirem qual é o seu “home”.Começam então as quadras destinadas a cada um e a cada uma.

                                   O Tonho da ladeira
                                   Gosta do assim-assim...
                                   Com quem o hemos de casar?
                                   C’o a filha do Benjamim...

Vivó.ó.ó.ó... –grita a rapaziada em grande algazarra.

                                    O Janeta do Eiró
                                    Gosta de espetar o prego!
                                    Havemos de o casar
                                    C’o a Maria do desterro

Vivó.ó.ó.ó... –grita novamente a rapaziada em grande algazarra.

E assim por diante até todos os pares da aldeia estarem casados.

Com os casamentos acabados é a debandada para ir deitar o “entrudo fora” à mulher e receber o abraço.

Hoje já ninguém estranha ver um rapaz dar um beijo a uma rapariga, portanto menos admirado se fica ao ver dar um abraço. Mas nas gerações anteriores à nossa, em que ao ver o joelho duma moça os rapazes já ficavam todos “alvoraçados”, dar um abraço à “mulher”, às claras, só era permitido no entrudo.

As mães das moças capricham em ter doces caseiros e outros, jeropiga ou vinho fino e a “noiva” toda se aperalta para receber e dar o grande abraço, apertadinho, ao noivo. Interessante, também, é o modo como se assinala a chegada (deitar o entrudo fora) e que ao longo das épocas foi sofrendo várias alterações.

No tempo dos nossos avós, os rapazes juntavam-se aos grupos e combinavam ir juntos visitar as “mulheres” de cada um. À chegada à porta, com armas caçadeiras, atiravam um ou dois tiros ao ar, conforme as possibilidades financeiras de cada um e se a mulher era ou não do agrado.

Vieram depois as bombas de Carnaval, hoje proibidas, mas que ainda vão aparecendo. O rapaz, chegado à entrada da casa da “mulher” faz uma roda de bombas e chega-lhe fogo e assim elas rebentam. Deitado o “entrudo fora” ou “estoirada a mulher”, o rapaz entra em casa e pede-lhe o abraço. Cumprido o cerimonial há que comemorar comendo e bebendo das melhores lambarices que a casa tem para oferecer e fazer juz à sua dona.

Antes de haver electricidade, o que ainda é recente, era bastante mais pitoresco pois como as possibilidades económicas eram fracas,  havia muitos rapazes que transportavam consigo um pau em brasa numa das pontas, para com ele acenderem as bombas.

Ora, na escuridão da noite viam-se aquelas brasas em movimento o que dava um bonito espectáculo.

Agora, ainda que a tradição se mantenha, já não tem o mesmo efeito. Por um lado não é necessário transportar o lume de casa em casa e as próprias bombas estão passadas de moda; por outro lado um abraço ou mesmo um beijo já são coisas muito comuns, mesmo nas aldeias. Além disso, como já é costume as raparigas sairem à noite, também não é nada anormal nessa noite elas irem ao baile.

Depois do abraço dado e feitas as honras à dona da casa, os “casais” vão juntos para o baile onde toda a gente dança até de madrugada.

Até tempos muito recentes, havia a preocupação de não ir ao bailarico para além da meia-noite, pois dançar na Quaresma era pecado.

O costume de deitar o “entrudo fora” é bastante pitoresco pois nesse dia ninguém olha a zangas atrasadas. As portas, como é costume em Trás-os-Montes, estão apenas encostadas – é o “entre quem é? ...”. Estoura-se a bomba e entra-se sem a menor cerimónia e os donos da casa ficam bem gratos pela consideração que se lhes deu.

[1] Entrudo - Carnaval
[2]
Marafonos – Pessoas que se mascaram de qualquer forma, normalmente
     de cor garrida.

[3]
Embude – grande funil

 

 

  OS “BILHÓS“ NAS FALDAS DA SERRA DE NOGUEIRA

 

Aldeia situada nas faldas da Serra de Nogueira, sendo a sua origem anterior à fundação da nacionalidade portuguesa, foi-lhe concedido foral por D. Dinis.

É uma aldeia tipicamente transmontana com as casas pegadas uma às outras metendo-se apenas pelo meio os palheiros e cabanais.

Vila Boa é uma aldeia rodeada por uma flora muito rica e frondosa donde sobressaem os seculares castanheiros e montes cobertos de carvalhos e sardões – uma árvore da família das azinheiras. Por ser uma aldeia com muitos castanheiros, os seus habitantes têm a alcunha de “Bilhós”.

Pertencendo ao concelho de Vinhais, de que dista 14km, fica também perto de Bragança e os seus habitantes sempre fizeram mais comércio com esta cidade do que com a sede de concelho.

Até à década de 60 foi uma aldeia que, à excepção do sal, quase se pode dizer que era autónoma tal a quantidade e diversidade de artesãos que nela habitavam. Era uma aldeia que vivia da agricultura para sustento próprio, do pastoreio, principalmente de ovelhas e cabras.

É ainda do tempo de muitos dos actuais habitantes um pisão[4] onde, com o tecido feito nos teares de Vila Boa, era produzido o pardo[5] que depois iria ser
transformado nos fatos e capotes dos homens.

Teares, era um em cada família e todas as mulheres aprendiam a tecer não só os cobertores, mas também o linho, as mantas de lã, tapetes, sacos e mantas farrapeiras.

Dos artesãos eram famosos os soqueiros que com pau de amieiro, a bezerra[6] e as brochas, faziam o calçado (socos/tamancos) para toda a população usar principalmente no Inverno. Depois havia vários fuseiros, que além de fusos faziam também os piões para a miudagem brincar na quaresma.

Existiam serradores, ferreiros, capadores, pedreiros, carpinteiros, ferradores, alfaiates, barbeiros, moleiros, caldeireiros... havia também os moinhos do povo, onde todos podiam ir fazer a sua moenda, mantendo-se ainda hoje um em funcionamento.

A aldeia tende a desertificar-se pois a maioria dos filhos em idade produtiva emigrou para os países da Europa e Brasil, ou então procurou os centros mais populosos onde é mais fácil conseguir emprego. Vila Boa apresenta um povoamento concentrado num núcleo habitacional – o povo e três bairros dispersos – os bairros d’além.

Mesmo assim ao fim-de-semana ainda é uma terra com bastante vida e muito procurada pelos habitantes das aldeias vizinhas. Sendo uma terra pequena mantém três cafés.
Na época de férias a aldeia ganha novo alento com a chegada de todos os emigrantes que fazem questão de aí passar o seu período de descanso.

Até à década de 70 em Vila Boa ninguém pagava salários (jeiras) pois as pessoas ajudavam-se entre si naquilo a que chamavam “troca-jeira”. Nessa altura os trabalhos do campo eram feitos por grandes grupos e era constante ouvirem-se agradáveis coros de vozes, ou então  desgarradas animadas, sendo as mais famosas as dos segadores.

Um uso antigo, que nestes tempos de democracia faz admirar, era como se resolviam todos os problemas que à aldeia diziam respeito. No final da missa ouve-se uma voz máscula (a do presidente da Junta ou do Regedor) lançar o aviso solene “Homes do povo esperem no auditório”. O auditório era e continua a ser a via pública em frente aos cancelos do adro da igreja matriz. Hoje esperam homens e mulheres, mas nesse tempo, mais machista, todos os homens aí permaneciam atentos ao que a autoridade tinha para lhes propor. Questões nacionais, do concelho ou da freguesia aí eram discutidas e as que podiam ser solucionadas em Vila Boa, por a ela apenas dizerem respeito, eram-no, evidenciando um espírito verdadeiramente democrático. Uma vez aceites pela maioria dos presentes valiam como lei para todos os habitantes.

Ali se resolveram os grandes melhoramentos que alteravam o viver das suas gentes. Ali se continuam a discutir e tomam medidas relativas à comunidade.

Durante muito tempo Vila Boa podia ser considerada um protótipo de povoação unida, com vida comunitária, com raízes bem profundas nos tempos medievais.

[4] Pisão – Tipo moinho, com água quente, para bater tecidos.
[5]
Pardo – Tecido batido no Pisão.
[6]
Bezerra – Pele cortida para fabrico de calçado.

 

 

 
 

“CHOCALHAR” É POSSÍVEL

 

Os caretos de Ouzilhão passaram a ter uma maior visibilidade a partir da criação de uma Associação Desportiva e Cultural de Vila Boa (Vila Boa/5320-210 Vinhais) em 1994, que tem por objectivo conseguir que os jovens tenham uma actividade desportiva e se interessem por estudar e promover os usos e costumes da aldeia e da região.

Presentemente esta Associação trabalha na recolha de lendas, objectos, usos, costumes que identifiquem um passado comum, no sentido da sua preservação e com uma dinâmica de reactivação. Em resultado desta actividade está constituído um grupo de rapazes que se tem apresentado em vários pontos do país representando um pouco, com as suas máscaras e vestuário, os festejos do entrudo, a “Festa dos Rapazes” e o “chocalhar” das raparigas.














Fotos do Catálogo "Máscara Ibérica"
Edição: Câmara Municipal de Bragança
 
 


Nota:
Este texto foi escrito pela Associação Desportiva e Cultural de Vila Boa. Santos Ofícios fez apenas
        ligeiras alterações e  substituiu os títulos originais.