
Actualmente a produção de louça preta em
Portugal está confinada às zonas mais a norte do país, nomeadamente Minho,
Trás-os-Montes e Beira Alta, mas até às primeiras décadas do século XX esses
centros de produção espalhavam-se por todas as regiões a norte do rio Tejo.
Nessa altura era o próprio oleiro que
com a louça dentro de sacas às costas ou em cima do burro, ou então ajudado
pela mulher que a transportava à cabeça, calcorreava os caminhos que o
levavam às aldeias e pequenos lugarejos onde trocava as panelas, os
alguidares, os cântaros, as cafeteiras por algumas moedas, ou na maioria das
vezes por batatas, centeio, castanhas, azeitonas, figos ou azeite. Em troca
de uma panela pequena, por exemplo, recebia 2 ou 3 de batatas ou de
castanhas.
Eram tempos muito difíceis até porque os
agricultores não gostavam que os paneleiros (assim se chamavam na altura
estes oleiros), lhes pisassem as terras cultivadas e por vezes chegavam
mesmo a fazer umas ratoeiras que os faziam tropeçar.
Mas não só a venda da louça era
trabalhosa e espinhosa também a sua feitura e sobretudo a cozedura o eram.
Primeiro havia que amassar o barro, muitas vezes com a ajuda dos bois que o
pisavam; depois era preciso ir para a roda e fazer as peças, tarefa
normalmente desempenhada pelo homem; a mulher intervinha a seguir para a
gogar, ou seja decorar e polir (brunir) com um pequeno seixo do rio, o que a
deixava a brilhar.
Depois de seca vinha finalmente a
cozedura na soenga. Para isso era preciso fazer uma grande cova aberta na
terra, dentro da qual se encastelavam as peças, pondo as maiores na base e
as mais pequenas no topo. Este monte de louça em forma de pirâmide era
depois parcialmente coberto com lenha e tapado com torrões de terra. A
seguir ateava-se o fogo que devia começar por ser lento e fraco
para não fazer estalar o barro. Durante muitas horas, por
vezes toda a noite, o oleiro vigiava o fogo que chegava a atingir os 700º
graus e determinava, munido apenas da sua experiência, quando é que o
processo estava terminado. Esta era uma decisão muito delicada pois fogo a
menos significava peça mal cozida e fogo a mais peça estalada.
A louça era depois desenfornada já preta
por ter sido abafada com terra ramos e f
olhas
e com isso ter sido impedida a entrada de oxigénio durante o processo de
cozedura. Hoje em dia com os novos fornos o tempo de cozedura é de cerca de
5/6 horas e depois de herméticamente fechado, o forno só volta a ser aberto
passadas entre 7 a 9 horas. Dele saem peças de barro pretas tão brilhantes
que por vezes são confundidas com as de estanho, mas afinal o segredo está
no brunir com um pequeno seixo do rio.