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Segundo Júlia Ramalho, neta
da ceramista Rosa Ramalho, “a minha avó dizia que via demónios e contava-me
histórias de feiticeiras e eu acreditava em tudo”.
É assim que se recorda desta
personagem que marcou a cena artística portuguesa entre o final da década de 50
até ao seu falecimento, em 1977. Enquadrada na tentativa de propaganda do Estado
Novo, premiada no pós-25 de Abril, foi admirada por artistas, políticos, actores
e personalidades dos mais diversos quadrantes. A ceramista, nascida em 1888, na
Freguesia de Santa Maria de Galegos, em Barcelos, tornou-se conhecida apenas aos
70 anos. De Américo Thomaz a Mário Soares,de Lia Gama a Raul Solnado, de António
Quadros a José Rodrigues ou Jorge Vieira e Ernesto Veiga de Oliveira, foram
muitos os que se deixaram enfeitiçar por uma obra que continua a despertar o
fascínio além fronteiras. Uma obra singular da arte popular portuguesa, cuja
continuadora é a neta, Júlia Ramalho.
Em Santa Maria de Galegos o
único sinal a indicar a casa onde a obra de Rosa Ramalho se perpetua, são as
duas figuras dispostas à entrada com a cor que se transformou em sinónimo de
Rosa Ramalho, o castanho-mel. O EXPRESSO chegou ao mesmo tempo em que uma equipa
da televisão da Galiza se preparava para entrevistar a neta. A ceramista recebe
os jornalistas na sua oficina repleta de imagens por acabar. Em cima da mesa,
ultima um Baco engalanado com uvas e muitos caracóis: “Inspirei-me naquela
peruca do Marquês de Pombal”, diz Júlia , após a partida da equipa galega,
trabalhando o barro com à-vontade.
A casa é simples, vê-se que
as obras acabaram há pouco tempo. Mas tudo parece gravitar à volta da oficina
onde se acostumou a ajudar a avó e ainda se recorda do princípio: “Foi quando a
minha avó teve a visita de um grupo de estudantes da Escola de Belas Artes do
Porto (ESBAP). Peguei num bocadinho de barro e fiz uma figura, acho que eu tinha
uns dez anos. O António Quadros que estava neste grupo, olhou para a peça e
perguntou-me quanto queria por ela. Disse-lhe que queria 5 coroas. Deu-me 5
escudos”. António Quadros descobriu o trabalho de R.R e foi o responsável pela
primeira reportagem publicada sobre a ceramista: “Ele convenceu uma conhecida a
escrever um artigo sobre a minha avó e tornou-se um amigo querido. Os primeiros
livros que li, de historinhas, foram-me oferecidos por ele. Começou aí a fama da
minha avó”. Isto passou-se em meados dos anos 50 e a partir desta altura Rosa
Ramalho tornar-se-ia uma referência para a escola do Porto, que regularmente
organizava excursões a Barcelos.

Convém acrescentar que a
tradição do barro fez sempre parte da expressão popular daquela região e as
feiras que aí se realizavam eram frequentadas por pintores modernistas como
Amadeo de Souza Cardoso ou Eduardo Viana, para além do arroubo produzido em
artistas estrangeiros como Sonia e Robert Delaunay, que viveram em Vila do Conde
entre 1916/17 (ver Olaria Portuguesa: Do Fazer ao Usar, ed. Assírio & Alvim,
2004).
É justamente nestas feiras
que Rosa Ramalho passa a vender as suas figuras. Cresceu a testemunhar o
trabalho de ceramistas e artesãos nas feiras – seu pai era moleiro e a mãe
tecedeira. Mas a sua vocação inata ficará guardada por mais de meio século, até
à morte do marido e quando os cinco filhos estavam já adultos. As suas mãos
voltam a mexer, misturar e moldar o barro; primeiro pinta as figuras, depois
abandona esta técnica e resolve vidrar as personagens com a cor castanho-mel. A
sua assinatura genuína estava finalmente impressa: demónios e animais insólitos,
reis e rainhas diabólicos, cristos negros; cenas distintas dos temas tratados
pelos seus pares, distinguindo-se e, em simultâneo, acompanhando a linguagem
popular. Mas sempre com o toque pessoal, a baralhar as fronteiras do folclore. A
marca fantasista supera o telurismo puro, alternando o simbolismo intrínseco e o
surrealismo involuntário.
A sua fama ultrapassa as
feiras de Barcelos e chega ao Porto. Primeiro com a divulgação efectuada por
António Quadros na ESBAP; em seguida, numa exposição colectiva organizada na
Galeria Alvarez, do Porto, em 1956. Desde então, grupos de estudantes
dirigiam-se, às quintas-feiras, a Barcelos para visitarem a ceramista que não
sabia sequer assinar o seu nome nas peças.
Para Júlia Ramalho, os
visitantes faziam parte do dia-dia e mesmo quando o Estado Novo tentou aglutinar
a obra da sua avó como instrumento de propaganda, manteve a sua autonomia. Eram
muitas as personalidades que faziam a vilegiatura até Galegos: ”O Dr. Salazar só
vimos uma vez no Museu de Arte Popular, mas o Américo Thomaz passou uma vez por
aqui, o povo reuniu-se para ver a comitiva, a minha avó estava a assistir, ele
viu-a e mandou parar o carro só para cumprimentá-la. A minha avó tratava-o tu cá
tu lá.”
Os artistas chegavam sempre
nos dias de folga e ficavam o dia todo, como Raul Solnado, Eunice Muñoz, José
Viana. A Amália aparecia regularmente: “Uma vez veio fazer um filme na casa da
minha avó, chegou de madrugada com várias pessoas. A minha avó ia cedo para a
cama, mas lá abriu a porta e foi arranjar pão em Barcelos para matarem a fome”,
recorda Júlia Ramalho.
As idas a Lisboa são
frequentes, para participar nas feiras de artesanato onde recebe estímulos e
carinho de um público diversificado. Mas a ceramista tem a idade avançada. Em
Dezembro de 1977 uma hérnia que tinha piorou. Acabou por falecer: “Viveu muito
pobre e trabalhou até morrer”, resume Júlia Ramalho.
Contudo, a tradição
continuou na família, sem interrupções. A bisneta da ceramista, Teresa Ramalho,
professora de Inglês e Alemão, confirma: “A minha mãe persiste no trabalho; eu e
os meus irmãos continuamos, também, a mexer no barro. Estávamos sempre à volta
dela, às vezes explicava como fazer e isso não se esquece”. Desta forma, a
técnica tem uma continuidade: “Nunca houve paragem, nunca houve uma quebra,
desde que me lembro vi isso acontecer na família, o barro sempre presente nas
nossas vidas”, conclui a bisneta.
Actualmente, a matéria-prima
vem de Águeda, antes era trabalhada nos fundos da casa, num espaço denominado
“Aloque” –um género de prato grande e côncavo – onde o barro era misturado com
ajuda de vacas. As peças são modeladas, secam ao sol e depois levam uma primeira
cozedura e saem com uma cor rosa esbranquiçada; são mergulhadas depois em vidro,
já pintadas com a cor característica e voltam ao forno numa temperatura de mil
graus. O resultado são as imagens que vemos na oficina de Júlia Ramalho, em
galerias como a 56 Artes ou lojas de artesanato como a Santos Ofícios, ambas na
capital.
A noite chegou, mas em
Barcelos as mãos ainda amassam o barro. Júlia está a concluir um “Santo António
cansado”. A cena evoca o santo encostado a uma rocha que a ceramista enfeita aos
poucos, enquanto rememora a avó, pelo meio narra lendas minhotas que ouviu
quando criança e conta casos que se passaram em Lisboa com figuras como Ernesto
de Sousa ou Jorge Amado, outro apaixonado pela obra de Rosa Ramalho.
A azáfama do Natal já passou
– um período em que se trabalha até de madrugada, agora atende algumas
encomendas e faz o que lhe apetece, como o Baco que entretanto finalizou e
aguarda a cozedura, assim como outras peças dispostas nas prateleiras da
oficina.
“Quando era pequena via
aquelas figuras esquisitas, acreditava que elas existiam mesmo, tinha muito
medo”, revela Júlia que agora prefere fazer santos em vez dos demónios que a avó
reproduziu com os mais inusitados traços: “Fazer por vã glória, como dizia a
minha avó, não faço mais”.
Certo é que a obra de Rosa
Ramalho ainda desperta muito interesse, mesmo fora de Portugal. No ano passado,
uma equipa da televisão japonesa permaneceu uma semana em Barcelos filmando o
quotidiano de Júlia Ramalho para uma série de documentários intitulados
“European Lives”.
Como sucessora, Júlia tem
consciência do trabalho que leva a cabo, procurando manter viva a arte do barro
que herdou da sua avó, numa espécie de paixão louca e inaudita.
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