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O Galo de Barcelos

TEM COROA E NÃO É REI,
ESPORAS E NÃO É CAVALEIRO

 

 

 

Numa reportagem de apresentação e denúncia das miseráveis condições de trabalho (e de vida!) dos barristas de Barcelos, assinada por M.A., o Diário de Lisboa titulava em Julho de 1958 que “ o pai do galo de Barcelos é tão pobre que não dá conta da sua pobreza”.

Era então aí atribuída a paternidade do cantor de barro a João Domingos da Rocha, de S. Martinho de Galegos, octogenário ainda activo, que reivindicava e justificava a obra “estava eu aqui sentado, a jantar, e reparei num galo, de asas abertas, pimpão, a arrastar a asa à galinha, e vai daí disse ao irmão: vou fazer um galo a namorar a galinha. Pus-me ao trabalho e e a gente virou p’ra isto que aí vê, saíram estes feitos e imitados em todas as fabriquetas, que aqui ninguém tira patente e a vida custa a todos”. Como história não está mal, e fica tirada a certidão de nascimento do possível primeiro antepassado destes outros galarós que aqui ora se apresentam, saídos das mãos e da imaginação de Júlia Côta, Mistério e Júlia Ramalho.

Não nos move aqui a jura da paternidade referida, outros por certo a chamarão a si que isto das artes populares dificilmente se compadece com autorias exactas, nem há exames genéticos que nos valham; logo em 1965, por exemplo, J. M. Correia numa obra editada pelo então Museu Regional de Cerâmica (hoje o Museu de Olaria de Barcelos), nomeia pai do bicho a Gonçalves Torres “quem imprimiu os primeiros retoques a dar-lhe donaire e elegância. A partir daí, o galo passou a tornar-se erudito e a tomar ares de snobe. (...) Isto tem sido muito criticado, mas a verdade é que estes galos se vendem extraordinariamente e os primitivos têm uma venda insignificante”.

Mas estas referências servem, pelo menos, para ajudar a situar a origem moderna do galo de Barcelos tal qual nos habituámos a vê-lo, colorido e espampanante, descendente do tal outro galo primitivo já existente no século XIX, elemento mais importante no elenco do figurado de Barcelos, como refere o Rocha Peixoto em 1900, mas sem as cores e os arrebiques de agora, apenas cozido e não pintado. Provavelmente, será o resultado de uma apropriação vernácula por parte dos barristas locais de outras figuras mais finas e trabalhadas nos salões e nos conventos, talvez inspirados nas figurinhas doces modeladas em massa de farinha, como o galo de hoje – e as restantes figuras de barro produzidas em diversos centros oleiros do país – é resultado da constante busca de motivos, geitos, expressões dos oleiros, incorporando na sua sensibilidade estética e capacidades expressivas tudo o que resulta da sua experiência de vida (a obra de outros artistas, as gravuras das revistas, as possibilidades técnicas trazidas por outros materiais, o conhecimento de outras soluções plásticas...) e das exigências de uma profissão de produtores-vendedores semi-nómadas (as preferências dos compradores, o gosto popular, as modas de cada época, a estratégia da novidade, o apetite pela originalidade e pela marca pessoal, as impressões de torna-viagem pelos fins do mundo...).

 

 

Em Barcelos a importância da sua representação terá certamente raízes na lenda do Senhor do Galo, recorrente nas notas de peregrinação a Santiago de Compostela, encontrada com as compreensíveis variantes em diversas terras e países de onde confluíam peregrinos para a Galiza, onde um galo tem papel de justiceiro a ilibar um viajante injustamente acusado de roubo e mal julgado por um juiz descuidado dos seus deveres; em Portugal, lá está, é em Barcelos que esta história se manteve mais viva na tradição oral e perpetuada em padrão de pedra, onde a escultura do santo galináceo, asas abertas e bico ajustado , terá sido outra fonte de inspiração para os barristas locais.

Isto tem tudo a ver, afinal, com a arquétipa e universal prática de recorrer aos animais como símbolos da (e para a ) própria humanidade, projecção dos seus anseios e receios, num jogo de metáforas e caricaturas em que os elementos da natureza, ou algumas das suas características particulares, servem à maravilha para representar qualidades ou comportamentos das humanas criaturas. Desde as mais complexas e iniciáticas construções mitológicas até às mais próximas e imediatas representações populares, o recurso a figuras animais como emblemas e código dos valores humanos e como caminho para a comunicação com as dimensões transcendentes da vida (adivinhar o futuro, solicitar os deuses, interpretar o destino) atravessa o tempo da humanidade, e desde esses inícios e lugares remotos o galo sempre esteve presente, e não por acaso com sentidos e atribuições muito semelhantes: animal solar, anunciador do dia, princípio masculino, de carácter exuberante e aguerrido, encontra-se na China como sinal de bom augúrio, símbolo de coragem, fertilidade e benevolência, assim como na Índia e no Japão xintoísta. É também presença frequente nas mitologias grega e romana, sempre como animal protector dos vivos e guardião dos mortos, para os guiar até uma nova vida.

A simbologia do galo, ao mesmo tempo sentinela, oráculo e bússula, está nas raízes mais fundas da nossa cultura, vinda destas tradições gregas e romanas, e foi emblema do próprio cristianismo primitivo – onde tantas vezes representou o próprio Cristo, como anunciador de uma nova luz, de um novo dia, da ressurreição para a vida verdadeira – enxertando-se na antiga crença romana de animal protector dos lares contra as ameaças das trevas nocturnas, surgindo a encimar as portas e os telhados das casas, de onde facilmente passou para marca invocada nos túmulos dos primeiros cristãos, guia das almas durante a travessia de longa noite da morte até à luz da nova vida, reminiscências que ainda hoje encontramos no topo de igrejas e edifícios públicos, vigilante e anunciador dos tempos que estão para vir, desafiador de maleitas e azares sob a forma de catavento e para-raios. Associado nos Evangelhos ao episódio da negação de Cristo por S. Pedro, o galo ao cantar três vezes lembra as fraquezas humanas e o valor do arrependimento.

O poder do galo é tão grande que o seu canto afugenta os demónios e dissolve as assembleias das bruxas, separando a noite do dia, afastando para longe as trevas da existência, e a sua crista assada comida atrás de uma porta é o melhor remédio conhecido para tirar os medos aos meninos. Por isso não admira que o povo o chegue a considerar como um símbolo de si próprio, não apenas entre nós mas, exemplo maior, como bandeira popular da Revolução Francesa, substituído e vergado depois pelo poder imperial da águia napoleónica.

 

 

A sua proximidade doméstica e a valorização da sua simbologia expõe-no facilmente à recriação e aproximação pelo povo, em ditos e feitos, frases de exemplo e proveito de sabedoria da experiência vivida, produto colorido e exuberante ao dispor de artistas espontâneos e anónimos, pretexto de jogos, de palavras e dos outros, de tabuleiro ou quando o tabuleiro é o próprio terrado de encontro de toda a povoação. Personagem de inúmeros provérbios e ditos populares, o galo tem coroa e não é rei / esporas e não é cavaleiro / trabalha no campo / mas não ganha dinheiro, e do alto do seu poleiro lembra que onde há galo não cantam galinhas. Particularmente curiosos, e julgamos que bem menos conhecidos que os seus equivalentes dos judas ou do bacalhau, são os julgamentos e testamentos do galo, de que foram editadas várias versões em folhetos de cordel ao longo de século XIX e primeiras décadas de XX, donde se respingam quadras como Em tudo quanto vos disser / tomai sentido e tento / que eu principio agora / a fazer meu testamento (...). As penas das minhas asas / que são rijas a valer / são pró nosso regedor / para penas de escrever (...) Deixo as unhas dos pés / para as mulheres viúvas / se arranharem de noite / quando lhes morderem as pulgas (...) Deixo, e é minha vontade / seja a minha sepultura / dentro dos corpos humanos / que é melhor que na terra dura. Fazem parte estes testamentos do ciclo do velho entrudo e da quaresma rurais, época de despedida do frio e escuro inverno e de abertura para a nova vida da primavera, e por isso ocasião aos ajustes de contas da comunidade consigo própria, de restabelecimento dos equilíbrios e do lamber de feridas por sarar, e nada melhor do que o fazer em público e de forma jocosa, para que os espíritos entrem apaziguados e limpos num novo ciclo luminoso e próspero. Manifestação nortenha (Trás-os-Montes, Beira Alta) destas práticas de entrudo em que o galo é figura central são também os jogos do galo ou o correr do galo, onde os rapazes da terra tentam com um pau acertar o pobre bicho, amarrado numa corda ou enterrado só com a cabeça de fora, brincadeiras em desuso e hoje, se calhar, potenciais alvos de fúria justiceira dos sempre vigilantes amigos dos animais.

Esta facilidade em se tornar emblema de povos e o seu enraizamento na tradição levou a que também dele se apropriasse a propaganda do Estado Novo, que sem nada inventar também soube aproveitar alguns emblemas populares para os estilizar e tornar seus – em nome, claro, do próprio povo, assim mais uma vez espoliado e abusado, até dos seus símbolos mais ingénuos, foi o galo mas foi também o barrete do campino, a saia da nazarena, a chinela da varina, o coração da guitarra... – ainda por cima, e não por acaso, em plena época de emergência do folclore, do turismo, do artesanato, do típico, enfim, de novas indústrias do lazer e do espírito que possibilitavam a recriação de um povo conforme o entendia a parte desse povo que se podia dar ao luxo de dele se extrair, a burguesia urbana e cultivada, os intelectuais e artistas que achavam ter por missão endireitar o mundo e salvar as almas. Assim lá esteve o galo, o de Barcelos mais amiúde, nos cartazes de propaganda do SNI, nos emblemas da FNAT, como prémio do concurso da aldeia mais portuguesa, a promover o turismo além fronteiras, a ganhar prémio de artesanato em exposições internacionais... Pobre galo, depenado como símbolo do povo ideal de um país imaginário, existente apenas para descanso e deleite de ditadores. A ironia escondida e trágica dessas apropriações era já exposta na acima referida reportagem do defunto DL “... um povo que nos cartazes turísticos é bom bailador, amigo da pinga, cantador de tocatas. Mas este povo na realidade não canta nem dança.”.

Haveria, ele próprio anunciador de alvoradas, de atravessar esses tempos e renascer uma e outra vez, penas sacudidas e bico e esporas prontas para novas lutas, tantas vezes usado e abusado, nuns dias mais capão do que galo inteiro, mas nunca deixando de saudar os sol, de afastar o escuro e as bruxarias, de ser pimpão e galanteador, aguerrido e provocador, papa-milho e cata-ventos, sempre revivido em cada manhã, relógio dos pobres e despertador das consciências.

O galo canta de galo? e o canarinho? o canarinho cai e o vagabundo vai a cada mundo! ai!

 

Carlos Nuno

 

 

 

 

“VIGILANTE, BRIOSO, ENAMORADO,
 GUERREIRO, MADRUGADOR”

 

Reza a tradição que num belo dia dos fins da Idade Média, passou por Barcelos uma família de romeiros em direcção a Santiago de Compostela, na Galiza.

Tendo que pernoitar, dirigiram-se a uma estalagem da beira-rio. Como iam precavidos com abonado farnel, nenhum gasto fizeram, além da dormida. O facto irritou de sobremodo o estalajadeiro; o homem de maus fígados, logo se pôs a ruminar fera vingança que o desagravasse daquilo que considerava como séria desconsideração para com as disponibilidades da casa.

Assim, à sucapa, introduziu na sacola de um dos romeiros visados, um talher de prata seu, correndo a alertar as autoridades que havia sido vítima de um roubo.

Já no caminho, os peregrinos foram surpreendidos pelos oficiais de justiça que, procedendo a uma busca sumária, logo deram com o objecto do pretenso furto. Levada a família de romeiros perante o juiz de Barcelos, o inadvertido detentor do talher foi condenado à forca.

O pobre do homem, diante da morte, iluminado pela Virgem, repou do alforge um frango assado que levava no farnel. Lançando-o sobre a banca do magistrado, anunciou solenemente: - “É tão certo eu estar inocente como este galo cantar!” Logo a ave, recuperada a vermelhidão da crista e o colorido da plumagem, sacudindo as asas, ergueu-se a cantar, com grande espanto e temor dos circunstantes.

Assim foi reconhecida a inocência do romeiro de Santiago, sendo logo condenado em seu lugar o velhaco do estalajadeiro que lhe lançara o prejúrio. Posto em liberdade, aquele peregrino, salvo miraculosamente duma torpe cabala pela intercessão da Virgem, em agradecimento e memória do sucesso , mandou erigir um pedrão em frente à forca (1). Esse singelo cruzeiro, originário de Barcelinhos, na outra margem do Cávado, encontra-se hoje patente no Museu Arqueológico de Barcelos, junto às ruínas do Paço dos Duques.

Aqui começa a interessante epopeia do popular “Galo de  Barcelos”, hoje arvorado, sem contestação, em símbolo do turismo português e, muito particularmente, da Costa Verde, sua terra natal. É pois, sobre o longo processo do seu aproveitamento turístico que nos propomos falar.

 

HÁ GALOS E GALOS

O galo, como espécie zoológica, é uma presença constante nas tradições populares (2) a maioria de inspiração cristã. Recordem-se, a propósito, a simples missa natalícia do Galo, ou a referência que o próprio Cristo lhe faz, quando prevê o transcendente episódio da negação do Senhor pelo discípulo Pedro: “Em verdade te digo que, esta noite, antes que o galo cante, Me negarás três vezes” (3).

Esta dupla função despertadora do sono e, por transposição, da consciência dos homens, reforçada pela presença imemorial nos meios rurais trouxe-lhe um especial respeito por parte das gentes.

Noutros casos, porém, o galo apresenta-se como o oráculo pagão de diversos presságios, por ventura radicados no lusco-fusco da bruxaria medieval e na própria Antiguidade Clássica – onde o galo debicava grãos de milho que os crédulos lhe lançavam intencionalmente no lajedo dos templos, em busca de indicações sobre o provir. Excepção feita, claro está, aos descendentes da viciosa e indolente Sibáris – a cidade do prazer da Antiguidade, que escorraçou todos os galos para que o seu canto matinal não ferisse a moleza do dormir...

Se o galo, na sua interpretação artística popular de Barcelos dá hoje a imagem do nosso turismo, noutras paranças ascendeu até a dignidade de emblema nacional! Tal foi o caso da França oriunda da antiga “Gália” romana, que buscou o nome, precisamente, na simpática ave de que estamos tratando. O galo faz parte, de pleno direito, da história gaulesa: tendo começado por decorar os estandartes e bandeiras da Revolução Francesa de 1789, seria banido sob o Império de Napoleão, que deu preferência à águia; os burgueses revolucionários de 1830 sobrepuseram-no à flor de lis; com a queda do regime, vinte anos depois foi de novo preterido, agora por Napoleão III, que repôs Império e águia.

Esta curiosa luta, carregada de simbolismo, entre a águia aristocrática e o galo burguês, levaria então o festejado poeta Pierre-Jean de Béranger a escrever, a propósito dos Bonapartes:

“A sua águia ficou-se no pó
cansada de distantes expedições;
tornemos ao galo dos Gauleses,
também ele soube brandir o raio!” (4)

“Vigilante, brioso, enamorado, guerreiro, madrugador” – na preciosa síntese que dele faz o saudoso e erudito galego Ramón Otero Pedrayo. – “o galo canta na noite desde que surge o primeiro vestígio de consciência histórica. Leva no seu canto a confiança dos fortes, rasga a noite tenebrosa com a sua voz, dá ao prisioneiro dos medos a segurança do dia”.

Constituindo o mais remoto “relógio” com que a Humanidade conta, a vigilância simbólica conferida ao galo desde o pecadilho de S. Pedro no episódio da negação de Cristo, guindou a sua caprichosa silhueta até aos campanários das igrejas onde, fantasiado de catavento, se entrelaça curiosamente na tradição pagã da Antiguidade – que o tinha por profeta do destino – orientando-se de acordo com as guinadas dos ventos indicadores dos bons e dos maus tempos. Enfim, a sua tríplice missão de sentinela, oráculo e bússola, proporcionou-lhe através dos séculos uma posição de destaque nas tradições populares das comunidades ocidentais.

Paulo Pina

 

Notas:

(1) Esta é uma das muitas versões da Lenda do Galo “que ocorreram
em Barcelos, segundo a recolha de A. Gomes Ferreira feita na sua obra
“Tradições Populares, Linguagem e Toponymia de Barcellos”, publicada
em 1916. Contudo, todas elas se repetem no tocante à personagem
do romeiro de Santiago e ao milagre da ressureição do galo, que o
salvou da forca.

Assinale-se ainda que existe uma lenda espanhola em tudo semelhante,
que a tradição localiza em Santo Domingo de la Calzada, na Castela Velha,
a cerca de oitenta quilómetros de Burgos.

(2) Cf. Horácio Marçal “O Galo na Tradição Popular”.

(3) Evangelho, S. Mateus XXVI 34

(4) “Son aigle est resté dans la poudre / Fatigué de lointains exploits: /
Rendons nous le coq des Gaulois / Il sut aussi lancer la foudre.”

 

Estes textos sobre o Galo de Barcelos fizeram parte
da exposição “O Galo na Arte Popular Portuguesa”
que integrou o XII Cantigas do Maio, festival de música
tradicional realizado no Seixal e organizado pela
Associação José Afonso e Câmara Municipal do Seixal.