|
Maria Olinda

Maria Olinda nasceu em 16 de Outubro de 1935 no
lugar de Santa Maria de Arrifana, Ervideira, muito próximo de Vila
Nova de Poiares e do Lorvão.
Quando Maria Olinda nasceu já há séculos que se
faziam palitos de madeira, preferencialmente em salgueiro branco,
com origem provável no Mosteiro do Lorvão onde as freiras os
iniciaram para melhor “picar” os seus bolos e doces. No final do
século XIX mais de mil famílias socorriam o seu orçamento familiar
com o dinheiro obtido na execução de palitos. Maria Olinda fazia
parte de uma família numerosa de 17 pessoas que se dedicavam a esta
actividade e tal como todas as outras raparigas iniciou o seu
trabalho aos 7 anos de idade.
Lembra esses tempos com saudade, quando a
família mexia e remexia, cortava e afinava a madeira de salgueiro, à
sombra de uma cerejeira ou de uma figueira, cantando para melhor
passar o tempo.
O trabalho árduo e necessário não permitiu
tempo para estudar. Ainda assim, por volta dos 17 anos começou a
aprender a ler e escrever (os namorados a isso “obrigavam”) só
fazendo a 4ª classe em 1996 (1997?).
Cansada dos palitos e seduzida pelo macio da
madeira fez a primeira peça por volta dos 15 anos, um moinho
trabalhado com amor, ao lado da tia que também era sua madrinha.
Escondeu o moinho e depois fez um barco, peças que afinal a sua irmã
descobriu e mostrou a outras pessoas e por causa disso se zangaram.
Daí por diante com uma navalha, sempre afiada num xisto negro
azulado muito especial, foi fazendo inúmeras peças que a sua
imaginação indicava. Pavões, presépios, santos, moinhos, barcos,
palmeiras foram saindo das suas mãos bem como uma grande variedade
de palitos decorados para diversos fins.
Destacam-se os seus presépios que já obtiveram
vários prémios nacionais.
|
Dos Palitos ao Pavão
Maria Olinda começou a fazer palitos de madeira
aos 7 anos de idade, vendidos a granel a empresas do Lorvão que
depois os embalavam para venda nacional e internacional.
Imaginem-se dias inteiros, famílias numerosas a
fazerem palitos e a desagradável rotina que isso implicava.
Os palitos eram normalmente feitos em madeira
de salgueiro podendo em certos casos serem feitos em choupo. O
salgueiro existia em abundância nas margens dos rios Alva, Ceira e
Mondego e era fácil de plantar (“pegava de estaca”). Das três
variedades de salgueiro (salgueiro, salgueirinho e salgueiro preto)
o salgueiro branco era o mais usado por a madeira ser branca,
flexível e ter um sabor adocicado bastante agradável.
Os instrumentos de trabalho eram simples, o que
possibilitava sempre trabalhar em locais diferentes conforme as
necessidades ou gostos da família.

Sentado num banco baixo, numa pedra ou num
pequeno tronco, o paliteiro ou artesão, colocava na sua perna
primeiro um papelão ou coiro velho e por cima um pedaço de cabedal
que o protegia dos golpes de navalha quando esta fugia da madeira. A
navalha era vulgarmente afiada num xisto especial alongado. A
madeira era aparelhada com uma foice sem bico.
Esta actividade, importantíssima na região de
Coimbra, ocupava muitas famílias não só pela sua simplicidade de
produção, como pelo aproveitamento de tempo disponível que outras
ocupações proporcionavam, normalmente agrícolas e porque podia ser
executada a qualquer hora do dia e da noite.
Os palitos eram diversos e tinham várias
utilidades, para além do seu uso mais habitual, o de retirar dos
dentes pequenos restos de comida. Segundo Leite de Vasconcelos temos
o marquesinho (vulgar e fino), o palito de flor (decorado), o palito
gigante (para farmácias), o palito de relógio (comprido com dois
bicos para relogoeiro).
Podemos dizer que é a partir dos palitos de
flor que muitos artesãos dão lugar à sua imaginação. Para executar
os palitos de flor (lascavam-se pequenas aparas de madeira, que se
enrolavam por si) era já necessária grande habilidade, que com
alguma experiência e técnica adquirida, resultava em rendilhados de
grande beleza.
Da evolução desta técnica podemos apreciar hoje
o seu resultado em Maria Olinda, que segundo julgamos é a única
sobrevivente desta actividade.
|
| A ARTE DE FAZER PALITOS
Modalidade
artesanal que a tradição atribui, na região de Lorvão, à influência
do mosteiro, mas que a antiga área de expansão parece desmentir, o
fabrico dos palitos abrange, actualmente , uma área residual que se
distribui, em ambas as margens do rio Mondego, pelos concelhos de
Penacova e Vila Nova de Poiares.
No entanto, persiste ainda na memória de alguns a presença desta
indústria noutras localidades, e a consulta de diversa documentação
escrita permite estender, em tempos idos, essa zona de fabrico a
Coimbra, a algumas povoações dos seus arredores e até a terras
distantes como da cidade do Porto, onde o inventário industrial de
1881 localiza seis fabricantes. Neste caso, no entanto, certas
relações mantidas com a zona de Coimbra, nomeadamente a importação
da madeira de salgueiro necessária para este fabrico, sugerem que a
técnica tenha sido importada dessa região, impressão essa que se
confirma se for estabelecido um paralelo com o que, nessa mesma
época, se passava em Lisboa, onde a comercialização e possível
fabrico dos palitos surgem sempre, explicitamente, associados com a
região Coimbrã.
As mais antigas dessas fontes escritas de que se tem conhecimento
permitem concluir, efectivamente, que o fabrico de palitos já era
considerado como típico da área de Coimbra desde a segunda metade do
século XVIII. Também Manuel Dias Baptista, numa monografia sobre
Coimbra e os seus arredores, publicada pela Academia Real das
Ciências de Lisboa, na secção intitulada "Do estado do comércio e da
indústria", cita a manufactura de palitos em Lorvão, juntamente com
o fabrico de louça, panos e doçaria, como uma das produções locais
que mais animam o comércio da cidade.
Com referência ao século dezanove encontram-se também diversos
documentos iconográficos, que apontam para a mesma região como área
produtora por excelência. as gravuras mais antigas foram publicadas
em 1806 e 1809, mas esse tipo de documentação surge mais depois, com
certa frequência, nas colecções sobre tipos regionais, publicadas no
decurso do século, localizando invariavelmente, na zona de Coimbra,
essa actividade, cujo comércio surge, quase sempre, associado com o
das rocas e colheres de pau - para o que poderia contribuir o
trajecto das vias comerciais que ligavam a Beira interior a Coimbra.
Já o texto de Júlio César Machado, que acompanha uma aguarela de
Columbano representando um pequeno vendedor de palitos e rocas das
ruas de Lisboa, além de referir "o salgueiro branco das margens do
Mondego" como matéria prima deste fabrico, pode apontar mesmo para
uma mais vasta região de pesquisa e informações, ao afirmar que o
pequeno vendedor teria vindo das Beiras, de Poiares, Mangualde, ou
de onde quer que fosse. Nessa data 1888, dá ainda como praticamente
ultrapassada a venda das rocas em Lisboa, pois já quase ninguém as
utilizava, o que não sucederia, provavelmente com os palitos.
No entanto, é acerca de Lorvão e das zonas vizinhas que se possui
maior número de elementos informativos sobre esta actividade, o que
aliado ao facto de ser essa a única área do país em que o fabrico
ainda se mantém, actualmente, leva a que passe a ser essa região que
servirá fundamentalmente, de suporte a estas notas.
De facto, a quase totalidade das noticias da segunda metade do
século passado aponta para a povoação de Lorvão como a sede da
indústria dos palitos, o mesmo continuando a suceder nos princípios
do actual, quando, por exemplo, a produção na cidade de Coimbra,
outro centro tradicionalmente com algum relevo, já era dada como
estando francamente a definhar. Apontada como região de matas de
pinho, eucalipto ou castanheiro, e lugar de fracos recursos
agrícolas, onde os homens, no dizer de Lino d´Assumpção, eram, pela
maior parte, "cavões", que só viviam do trabalho da enxada, andando
na lavoura alheia, a área de Lorvão propiciava o estabelecimento de
uma indústria caseira como o fabrico de palitos.
Assim se preenchiam disponibilidades de tempo e se contribuía para o
sustento diário, nesse trabalho se aplicando crianças, mulheres,
velhos e mesmo homens adultos. A iniciação nesse fabrico de crianças
de sete e oito anos, que há tempos atrás era de regra, ainda hoje se
pode constatar, embora esse facto não surja já sob a pressão
exclusiva da necessidade, parecendo antes como um ritual de
iniciação tradicional. Mas tal não acontecia nos tempos duros que os
paliteiros mais velhos ainda relembram, e em que o trabalho infantil
era largamente utilizado.
Assim, num relato de António Luiz Henriques Secco, datado de 1853,
diz-se que "os moradores de Lorvão, homens, mulheres e crianças, são
talvez o povo único do país, que se dedica á pequena indústria do
fabrico de palitos, e à exportação para diversas cidades do Reino,
donde passam mesmo a mercados estranhos. Esta indústria caseira terá
chegado a atingir um desenvolvimento notável nos finais do século
passado. Segundo testemunho de Esteves Pereira, em 1893, a produção
era abundante devido ao número elevado de pessoas que se dedicavam a
esse mester, e a que, por não ser muito pesado, as mulheres, os
velhos e as crianças forneciam um largo contigente, sendo também
baixos os preços praticados, o que contribuía, decisivamente, para a
facilidade da sua colocação no mercado. E em 1902 Joaquim de
Vasconcelos dizia que se calculava em cerca de mil o número de
pessoas que, na cidade de Coimbra e em Lorvão, se dedicavam ao
fabrico de palitos.
O interesse dos mercados estrangeiros vinha, igualmente, a aumentar,
abrindo-se, 1892, em Lorvão, uma agência para exportação deste
artefacto, que abrangia, por essa época, países europeus, como a
Espanha e a Inglaterra, os antigos territórios ultramarinos e as
Américas, onde os palitos portugueses apareciam no México e,
principalmente, no Brasil.
Nesse final do século os palitos portugueses, provenientes desta
região, foram também apresentados em várias exposições promovidas a
nível distrital, nacional ou internacional, com o objectivo de
desenvolver as indústrias do país. Sem procurar fazer um
levantamento exaustivo destas representações, podem-se citar as
Exposições Distritais de 1869 e 1884, que tiveram lugar em Coimbra,
a Exposição da Indústria Portuguesa de Lisboa, em 1888, e a
Exposição do Palácio de Cristal Portuense, em 1891, certame onde
obtiveram algumas medalhas e menções honrosas.
Eram ainda frequentes exposições concurso em que as paliteiras eram
premiadas, não só pela habilidade e perfeição que demonstravam na
sua arte, como pela graciosidade da sua apresentação, motivando
rivalidades entre as povoações que representavam. A nível
internacional, pode mencionar-se a ida à Exposição Universal de
Paris, em 1900, e, mais tarde, a apresentação na Exposição
comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, que teve
lugar no Rio de Janeiro, em 1922.
Existia, no entanto, uma dependência muito grande em relação a
alguns mercados, principalmente ao brasileiro, tão importante para a
produção da região lorvanense que, tendo esse país atravessado uma
dura crise económico política, cerca de 1891, tal ocorrência teve
reprecussões negativas graves a nível local, traduzida numa forte
baixa na exportação do produto. O preço de comercialização dos
palitos desceu então para menos de metade, tornando-se difícil a sua
colocação no mercado, e a situação chegou a ser tão precária que
originou a vinda de algumas famílias para Coimbra, numa tentativa de
angariarem aqui melhores meios de subsistência. No entanto, a
avaliar pelos frequentes testemunhos inseridos na imprensa local, a
produção parece ter continuado ainda a aumentar ao longo do primeiro
quartel do século actual, sendo inclusivamente, o seu escoamento
facilitado pela melhoria das vias de acesso com que Lorvão foi
progressivamente, beneficiado.
Mas a vida na povoação parece ter sido sempre difícil, existindo,
por exemplo, fortes deficiências no que se referia à habitação, pelo
que, já em 1903, os naturais reclamavam ao governo o arrendamento em
parcelas de parte do convento, o que, efectivamente, veio a suceder,
tendo o edifício sido habitado, durante largos anos, por uma parte
da população local, que, só em 1952, viria a ser transferida para o
"Bairro" social, expressamente construído para esse fim.
Com efeito, as condições de comercialização dos palitos nunca foram
favoráveis para os fabricantes, originando tentativas de venda
directa deslocações defíceis, ou sujeitando-se os paliteiros, em
alternativa, a uma cadeia de intermediários gananciosos, que lhes
foi sempre extremamente desfavorável. São frequentes os testemunhos
de deslocações de naturais das regiões produtoras para Lisboa, onde
chegavam a permanecer largas temporadas vendendo coisas das suas
terras. A este respeito, é interessante observar a documentação
iconográfica já mencionada, relativa aos vendilhões de palitos,
rocas e colheres de pau - produtos cuja venda, como também se
referiu, andava habitualmente associada - provenientes da região de
Coimbra, e que se estende por todo o século XIX. Embora houvesse
também quem abalasse com os mesmos objectivos para outras partes,
inclusivamente para Espanha.
Com maior frequência, no entanto, a produção ingressava numa longa
cadeia de intermediários, que tinha início na própria povoação, a
grande maioria das vezes através dos comerciantes locais. E aqui é
curioso verificar a subsistência, até à actualidade, de uma
antiquíssima forma de transacção, a permuta, em que os maços de
palitos são trocados directamente por géneros de primeira
necessidade, e outrora, também pelos papeis coloridos utilizados nas
embalagens.
Compreende-se bem como este esquema de troca, em que era enorme o
grau de subjectivismo na avaliação do valor do produto, podia chegar
a ser desfavorável para o artesão, que ainda por cima, efectuava,
quase sempre a transacção do seu fabrico pressionado pela
necessidade e, em certos casos, correndo mesmo o risco de ver a sua
oferta pura e simplesmente rejeitada. E, ao merceeiro, sucediam-se
os restantes elos da cadeia de intermediários que, desde o paliteiro
ao consumidor, podia compreender ainda quatro ou cinco
intervenientes, como ainda hoje se pode presenciar. O tipo e as
características da produção, aliados às condicionantes económicas
apontadas, ajudam também a compreender porque é que o fabrico de
palitos se tem mantido, essencialmente, como uma indústria
doméstica.
Apesar dos proventos económicos obtidos serem bastante baixos,
acabaram por constituir um complemento importante para os magros
orçamentos familiares dos habitantes da região. Salienta-se ainda a
possibilidade de serem dedicados a esta ocupação períodos diários
variáveis, permitindo assim harmonizá-la, sem dificuldades de maior,
com as restantes actividades de uma população com um ritmo irregular
de trabalho ao longo do ano. Além disso, como já foi dito, não se
está em presença de uma forma de labor pesado, notando-se mesmo que
uma acentuada componente lúdica integra as principais fases deste
tipo de artesanato. Realmente, o fabrico dos palitos manteve-se
sempre, essencialmente, como uma indústria caseira e, apenas nas
referências encontradas em relação à cidade do Porto, se menciona a
existência de oficinas de paliteiros, designação que não teria
praticamente sentido na zona de Coimbra, E as médias diárias ali
produzidas, sensivelmente superiores, parecem de facto indicar que
os artesãos se dedicaram exclusivamente a essa actividade, durante o
seu dia normal de trabalho. As diferentes condições de enquadramento
proporcionadas pela cidade nortenha aos paliteiros, porventura
vindos da região central do país e maiores possibilidades de
escoamento do produto, terão originado uma modalidade de fabrico
mais intensiva.
Uma outra questão, de certo modo relacionada com o que se acaba de
apontar, é a possibilidade de utilização de máquinas no fabrico dos
palitos. Numa época em que a industrialização era palavra de ordem,
muito natural seria que fossem iniciadas tentativas nesse sentido,
senão no nosso país, pelo menos naqueles para onde essa produção era
habitualmente exportada. Todavia, não se conhecem quaisquer
projectos de instalação do fabrico automático em Portugal, e as
referências ao assunto limitam-se a lastimar as consequências que
derivam desse avanço industrial.
E, no entanto, já eram conhecidas, desde os finais do século
passado, as tentativas feitas no continente americano no sentido de
se automatizar este fabrico, tendo algumas delas chegado a ser
relatadas na imprensa local. Os perigos da concorrência desencadeada
pela produção automatizada ameaçava assim, sobretudo os mercados
importadores de além - atlântico, principalmente se a qualidade do
artigo assim produzido começasse a equiparar-se à daquele que era
fabricado segundo técnicas artesanais. A produção manufacturada da
região continuou, entretanto, a monopolizar o mercado interno até
uma época relativamente recente, altura em que surgiram as primeiras
embalagens com palitos fabricados, automaticamente no nosso país.
|