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OS
MATARRACHOS
DE
SÉRGIO AMARAL

São
os matarrachos, figuras estranhas em barro preto, que deram uma especial
singularidade à obra cerâmica de Sérgio Amaral, nascido em 1959 numa pequena
aldeia beirã vizinha de Mangualde, onde ainda hoje continua a viver.
Sérgio Amaral é acima de tudo um curioso, alguém que gosta de
experimentar novos materiais, novos desafios. É essa curiosidade e vontade
de descoberta que o fez interessar-se pelo ferro e pela pintura. Foi esta
que lhe devolveu a paz interior ausente durante um período da sua vida, mas
é sem dúvida na cerâmica que o seu talento tem maior expressão.
Não é pois de estranhar que quando, na adolescência, passava
férias na aldeia do avô,
um dos seus grandes prazeres fosse a modelagem de pequenos bonecos de barro
que secava ao sol e de que hoje ainda restam alguns exemplares na sua
colecção.
Muitos anos depois receberá formação na arte do barro negro
característico da sua região, aprendendo por exemplo a técnica da soenga que
ainda hoje pratica e que está praticamente extinta. A soenga era o forno
artesanal e tradicional do barro preto: um buraco feito na terra onde as peças de louça
eram
cobertas com folhas e ramos cujo fumo durante o processo
de cozedura iria cobrir o barro de preto.
Sérgio Amaral aprenderá naturalmente a trabalhar à roda e mais tarde as modernas técnicas rákú e as reduções, mas continuará sempre a
ser ele próprio a ir buscar o barro a um centro de oleiros vizinho. É ele
próprio que descreve com
minúcia e gosto, todo esse trabalho que a maioria
dos actuais oleiros já não quer ter, preferindo as embalagens já preparadas vindas de Espanha.
“Cavo o barro na barreira, transporto-o aqui para a minha
oficina. Depois ponho-o ao sol para ele ficar completamente seco. Em seguida
arrumo-o e levo-o para a oficina, conforme a necessidade e ponho-o a
derregar - ponho-lhe água para ele a absorver.
Ele tem uma reacção como se fosse cal, a fervilhar. Quando o barro está
húmido,
passo-o num amassador e tiro-lhe as bolhas de ar, para ser trabalhado ou
mantido nesse estado durante meses”. Depois é estender o barro sobre uma
superfície plana, seguindo o método da lastra e cortá-lo para começar a fazer os seus matarrachos presentes em galerias e museus, nomeadamente o de
Arte Popular, recentemente extinto.
Na sua oficina afastada da
aldeia, ao olhar o pinhal e o arvoredo que a rodeia, ouvindo o fio de água
que corre mais ao longe e contemplando a Serra da Estrela, escapam-se-lhe as palavrasque norteiam o seu trabalho e a sua vida:

“E
a força que é precisa para se não
perder a ingenuidade...”
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