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Barros de Estremoz

 

 "É a terra onde se encontra o barro vermelho
mais fino e mais estimado de todo o Portugal"

                                              Cosme de Médicis

 

 

Barro branco, amarelo ou vermelho! Oca e almagre para tingir os alpendres e as empenas das casas da vila! Que sortilégio possuis para as gentes ficarem presas? De tal graça és feito que "por cada púcaro fica parecendo huma fonte" como se referiram. Mas nem só púcaros e vasos de usança útil. Mimos de Estremoz como diria o rei de Espanha. Tais mimos - tão velhos como o tempo - eram o complemento do viver.

Quando os navegantes portugueses trouxeram da Índia as porcelanas de finas gredas, deu-se em Portugal (como exemplo de rendoso negócio) a euforia da fabricação de cerâmicas. Se tínhamos barros finos porque não se havia de tentar tal maneirismo?

E as primeiras peças de feição portuguesa tinham os riscos da loiça das Índias. São os belos aranhões do século XVI e XVII.

Afinaram-se os processos e as porcelanas brancas, azuladas e leitosas, transparentes e finas com esmaltes, triunfaram no reinado das artes do grande D. João V na vinda dos mestres italianos.

A fama do barro de estremoz mais uma vez foi lembrada. O Cosme de Médicis bem o citara: "É a terra onde se encontra o barro vermelho mais fino e mais estimado de todo o Portugal". Mas como também havia aqui barro branco, um mestre das oficinas do Rato foi para a nossa vila alentejana e fundou cerâmica donde saíram pratos, terrinas, gomis, azulejos e quejandarias de utilizagem para a sumptuosidade da nobreza rural a que se juntavam sete conventos de frades e freiras nesse burgo cheio de vida intensa.

Frei Luís Pernacho era proprietário de fábricas de azulejos e ainda se afirma a existência, entre mais, da fábrica real. Conclui-se deste incremento ceramista um apogeu todo devido à excelência da plasticidade da terra viva que é o barro de Estremoz.

Enalteceu-o também Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V falando das águas de caldas, fontes, rios, poços, lagoas e cisternas do reino de Portugal dignos de particular memória em 1726: "o barro he de tal natureza que do muy fino, não só se fazem púcaros e quartos de boa forma, mas também figuras e brincos que servem de adorno e compostura de casas, no que se tem aprovado muyto o primor dos Artifícios, com utilidade sua".

Não só se fazem púcaros e quartos... mas também figuras e brincos...

 

...

 

Olhe-se a figura da "Primavera". É uma moura enfeitada com a saia de bailarina, chapéu com as pétalas de corola, um arco de flores nos braços - mais não sendo do que "as maias do mês de Maio" cheias de capelas de flores na cabeça, no colo e na cintura. Esta outra da preta - tem a mesma saia e anda com um tabuleiro a vender flores. O toucado é um drapeado de listéis coloridos que ainda se encontram nas mulheres do Estado da Baía, do Brasil. E depois,  - é o preto da procissão do corpo de Deus, o barbeiro da casaca à Luís XV, cabeleira empoada, calças e sapato de fivela, a sangrar o freguês que se entregou aos seus cuidados. Os Reis Magos, peças principais do presépio têm a indumentária do tempo do Rei Magnânimo, assim como a Virgem e S. José. O Menino Jesus está deitado em cama cuidada, tendo por cima, a velar-lhe o sono, três galarispos de penas gaias à espera de cantarem quando o sagrado Infante desperte anunciando a boa-nova.

 

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Em dois grupos podemos classificar estes monos, conforme a sua função. Mimos e brincos - isto é, de ornamento e de diversão.

De ornamento pertencem todas as figuras do presépio e suas aderências litúrgicas de louvar e cantar o Natal. Além da Sagrada Família com os três reis, há os pastores, cabreiros, ganhões, os soldados, as mulheres rústicas e domésticas, as damas, os peraltas, os janotas e toda a comparsaria que pára do seu mister para contemplar o Menino que acaba de nascer. Ficaram-lhes o nome de mimos talvez da função de representarem uma pantomima em cenário de relevo.

Por brincos entenda-se as galhofas dos infantes e amuletos - geralmente apitos encimados por pássaros maravilhosos, uma figa enfeitada, uma bota ornamentada, um gancho para fazer meia, cestos de ovos, caricaturas de pessoas para fazer rir e divertir.

Nos utensílios domésticos há também enfeites. Veja-se a graça posta nas bilhas e nos púcaros com tampas donde saem nas asas os ramalhetes de cravos e rosas e ainda no bojo do retábulo de coloridos farfalhudos. Era o barroco do século XVIII tansportado dos objectos eruditos para os artesãos populares.

 

...

 

Com a criação duma escola de ensino técnico em Estremoz tomou em certa altura a sua direcção o escultor José Sá Lemos. Vinha de Gaia, onde uma tradição bonecreira das cascatas se mantinha em exultância. Discípulo de Mestre Teixeira Lopes e integrado nas correntes da poesia das coisas simples e belas do reaportuguesamento, trouxe para Estremoz o sonho da ressurreição dos bonecos. A matéria era o barro; e este existia em quantidade e qualidade. Preparava-se ainda e do mesmo modo que no tempo em que por aqui passou o Cosme de Médicis.

"Moe-se finíssimo, amassa-se com água fazendo um barro que se passa premindo-o com a palma da mão para ficar denso. Então torna-se em pasta própria para trabalhar o que se faz com outra qualidade de terra que se alisa com uma espécie de cutelo ou folha de cana".

Sá Lemos encontrou o artesanato em plena decadência. Existem algumas oficinas mas só fazem objectos de uso doméstico. Dos nomes antigos o do Alfacinha é mais afamado. Este oleiro educado na Casa Pia de Évora com o ofício de marceneiro viveu na época grande dos Bordalos Pinheiros, em que a loiça das Caldas da Rainha alcança grande fama em todo o Portugal. Sugestionado com aquele sucesso, confia nesta moda e indo-lhe no caminho tenta a elaboração de novos modelos-moringues em vez de bilhas e outros tantos.

...

 

Sá Lemos era um ensimesmado. Na oficina onde aprendera vira-a um dia armada em cenário para ali se representar ao vivo o monólogo do Vaqueiro pelos grandes actores Rosas. As figuras do Mestre Gil fora-as também encontrar nos exemplares de alguns bonecos de Estremoz que lhe mostraram os coleccionadores. Metido num sonho, chegou a Estremoz e pensou...

É ele mesmo que nos conta:

"Mas então os bonecos, a tão característica e saborosa modalidade de inspiração popular? Era finda! Tinha já morrido com as suas últimas feitureiras. As velhas Fachas e a Estopa tinha levado consigo o segredo para a cova.

Havia, porém, uma mulherzinha que, na mocidade, tinha visto dar ao barro as variadíssimas formas de bonecos, e ela mesma ainda fez os celebérrimos galos, pombos e cestinhos dos ovos, cujos assobios atroavam as romarias e lhes davam ambiente. Como era difícil fazer um assombio! Fosse lá qualquer outro fazê-lo! Como dar encontro aos dois furos, condição essencial para produzir o som? Qual a inclinação a dar ao paulito, único instrumento para esse fim empregado? Uns trinta e cinco... quarenta graus, talvez! Mas pagasse para aprender, ela tinha feito o mesmo.

... Que já há muitos anos os não fazia; mal se lembrava, e esses, "os bonecos de figuras", nunca os havia feito.

Porém o desejo de vencer, o desejo de ver renascer os bonecos de Estremoz dava-me alento.

Havia já conseguido, por empréstimo, alguns exemplares, quase uma dezena, várias gravuras e desenhos.

Tudo preparado, só a ti Ana das Peles não se resolvia. Assim passaram dois anos, até que a convenci.

Ajuda daqui, ajuda dali, lá foi perdendo o medo, lá foi vencendo dificuldades, e as suas mãos, de dedos alongados e jeitosos, amoldam com habilidade o barro, que vai arrancando, aos beliscos, em quantidades ajustadas. Para um braço, dois beliscos bastam. Coloca-se entre as mãos espalmadas, que esfrega com cuidado, fazendo uma torcida em que, numa extremidade, grava, com o pauzinho-ferramenta, quatro sulcos, que representam a mão.

O vestir dos bonecos é curioso. É-lhes talhada a indumentária como se fora um mortal. Com uma pá pequenina, como as usadas para ajeitar a manteiga, o barro é batido, espalmado, até formar placa de pouca espessura em que cortam a saia que vestem pela cabeça, apertam na cinta e compõem nos folhos. É que o boneco nasce nu em séries.

Sobre a tábua que tem no regaço, que faz de mesa de trabalho, o barro é rolado e cortado em cinco pedaços iguais, onde colam, duas a duas, as dez pernas anteriormente amanhadas. E ali ficam os troncos, com os respectivos membros inferiores, esperando o arranjo das cabeças e braços e mais dos vestidos.

... Evidentemente que os seus modelos são inspirados nas pessoas e coisas mais da sua convivência e conhecimento.

O"Lanceiro" - testemunho evidente da permanência deste corpo militar junto de si, no seu trato o "Sargento", a "Senhora", o "Peralta", as "Pretas", etc., são a documentação mais representativa e interessante desses tempos.

Outros atestam o exuberante poder de concepção e fantasia do povo. A "Primavera", tanagra plebeia de mocidade, é sumamente típica com o arco de flores preso nos ombros, passando-lhe sobre a cabeça como auréola.

O "Sargento no Jardim", interpretação ingénua e saborosa, em que um gradeamento florido e pesado circunda a figura; a "Mulher do café", com a mesa do negócio, parece esperar o romeiro, na noite do fogo; a "Mulher dos enchidos", o "Pastor e o Rebanho", o "Pastor merendando", a "Mulher dos perus", de roca na cinta, e tantos outros.

A "Amazona", estilização caprichosa de forte sabor popular, apetece possuí-la e acariciá-la. O "Presépio", então, é um poema de encantamentos. A manjedoura, onde o "Menino" repousa, de concepção ingénua, roça pela infantilidade. Nossa Senhora, S. José e os Magos não desequilibram, antes formam grupo em que se sente a alma do povo misturada ao barro, em amassadura íntima e amorosa".

 
Texto e gravuras retirados do livro
"Memória sobre os Barros de Estremoz"
de Azinhal Abelho e editado pelas
Edições Panorama em 1964.